Madame Guyon foi uma piedosa mulher francesa que viveu entre os séculos XVII e XVIII. Ela influenciou muito o movimento da “vida interior”, vida do espírito. Em seu livro Torrentes espirituais, ela escreveu algo muito sério e importante. Segundo Madame Guyon, a vida cristã é como um pequeno rio que brota de uma fonte. À medida que esse pequeno rio percorre seu curso, outros pequenos rios começam a desaguar nele até se tornar um grande rio poderoso, forte e capaz de ser navegado. E é justamente nesse momento que um tipo de perigo surge. No momento em que você se torna um grande rio, muita gente e muitas coisas começam a “navegar” em você e, quando menos imagina, você está tomado por uma grande carga das coisas desta vida. Embora sendo um rio grande, pode se tornar lento e sujo, onde já não há mais o fluir das águas cristalinas. O perigo de crescer e se tornar um grande rio sujo e cheio de mercadorias é sempre real. Precisamos tomar muito cuidado com isso. A vida cristã não é uma experiência definitiva, ela apenas muda o andar do espiral. Sempre voltamos ao mesmo ponto em um lugar acima. Então, você pode mudar a maneira, a estratégia, mas nunca os princípios que regem uma obra de sucesso. Para nós, estrutura é como uma roupa, você cresce e troca, cresce e amplia. O estilo muda. Seu estilo não precisa ser igual ao nosso, mas os princípios de uma vida consagrada são inegociáveis para todos os que desejam um ministério de sucesso.

1. Preparando homens apaixonados para transferirmos o encargo de nosso coração

Nesse aspecto, Elias é uma chave; é o fator “homem” na obra. Esta é a fundamental importância de ter alguém apaixonado à frente do trabalho. Nesse contexto, o fator homem é uma chave para o cumprimento do propósito de Deus. O pastor Aluízio foi e é esse fator-chave no trabalho com os jovens. Ele foi líder de jovens por oito anos no início de seu ministério. Eu fui um jovem dentro de sua liderança. Ele estava vivendo todas essas experiências que estamos compartilhando em sua realidade de liderança. Ele havia queimado seus bois, abandonado tudo para servir a Deus, havia saído de uma vida natural e religiosa, estava vivendo Betel, escavando em busca de águas mais profundas em Deus. E nós fomos juntos. Eu cresci dessa maneira, nesse ambiente, e esta foi a maneira que vivi o estilo da vida da igreja. Mas, de fato, chega o momento em que Elias precisa “subir”. Uma hora dessas, Elias será chamado para outro lugar ou ministério, e Eliseu terá de continuar a obra que Elias começou. Nós vamos chegar lá. Essa verdade é um grande desafio.

Tenho continuado nesse caminho desde que fui chamado. Tenho trabalhado para transferir essa vida e realidade que recebi do pastor Aluízio a outros Eliseus. Nosso propósito é vermos que o mover do Espírito que temos experimentado, pela graça de Deus, passe adiante e não se perca entre nós. Não fique apenas na experiência de nossa geração. Se quisermos que isso aconteça, é importante olharmos e percebermos o fator homem. Deus precisa do homem certo. Eliseus precisam continuar sendo achados.

Será que Elias não chamou outros homens? Não sei. Ele tinha uma escola de profetas. Será que, entre os alunos da escola de Elias, não havia alguém com o caráter de discípulo como Eliseu? Com certeza, assim como deixaram Jesus no meio do caminho, muitos podem ter deixado Elias e muitos podem nos deixar. Todavia, devemos continuar crendo que os Eliseus aparecerão em nosso ministério em nossa igreja. Eliseu é um padrão de discípulo que os Elias de Deus certamente receberão. Quando Jesus compartilhou seu duro discurso no capítulo 6 de João, muitos discípulos deixaram de segui-lo. Todavia, Jesus disse aos discípulos: “Se vocês quiserem ir embora também, podem ir, mas continuarei a fazer a vontade do Pai”. O mover de Deus é soberano, claro, mas Deus encontra aqueles que darão as respostas necessárias. Por isso, nunca pare de investir nos que estão respondendo. Não vamos ficar necessariamente presos nos mais sabidos e supostamente inteligentes ou naqueles que falam melhor. Invista nos que têm um coração para Deus e têm dado respostas visíveis por viverem uma vida piedosa e cheia de paixão na obra de Deus. Nunca se esqueça de que, às vezes, Deus manda o que precisamos na embalagem que não gostamos, ou seja, Ele manda as pessoas certas, mas aos nossos olhos não parecem ser tudo o que queremos; todavia, se formos sensíveis, perceberemos muito dessa verdade entre nós.

3. Transferindo e mantendo o mesmo DNA

É sempre complexo crescer e transicionar a obra. Isso é um teste para os líderes e para os liderados. As coisas devem tomar as devidas proporções dentro das oportunidades que vão surgindo. Ninguém conseguirá fazer uma transição 100%. Até em relação aos próprios discípulos de Jesus podemos perceber que três estavam mais perto d’Ele. Os demais discípulos, depois da sua partida, não os encontramos mais na Bíblia, e o apóstolo Paulo aparece mais tarde com muita relevância. Nunca veremos todos seguindo o mesmo ritmo, mas sempre haverá um remanescente.

Quando a obra avança a partir de uma localidade, com certeza ganhará influência em outras instâncias. Para citar apenas uma, quero compartilhar um testemunho de alguns irmãos de uma igreja local em outro estado brasileiro. Eles começaram a caminhar próximo de nós há algum tempo e, em menos de dez anos, nós os vimos saltar das centenas de membros para dez milhares de jovens, isso é precioso. Fomos apenas um modelo para eles. Eles não são uma Igreja Videira, não participam da nossa associação, mas, porque tiveram a humildade de nos seguir, mesmo à distância, e se colocaram debaixo de uma influência, estão experimentando um grande mover de Deus.

Percebemos que num determinado ponto a influência cresce e migra de um trabalho local para uma influência em várias localidades. Somos sempre apenas iniciadores de obras que se tornam muito mais amplas do que apenas uma pessoa, glória a Deus por isso! Penso que, nessa questão de transição para que o trabalho continue sempre avançando, precisamos cuidar para não cairmos na tentação de querermos manter sempre a mesma coisa com medo de perder, e nesse medo, não nos abrirmos para o novo de Deus, quando os tempos e os modos precisam avançar.

Neste movimento de crescimento, a igreja tomou outras frentes de trabalho. Não precisamos nos preocupar em ser como sempre fomos, e sim nos preocupar em manter o DNA, o coração. Você não pode querer pegar a experiência de um lugar e colocar dentro de uma caixa, um “kit eclesiástico” que serve para todos sempre, isso não existe. A igreja é viva: são pessoas que não podem ser edificadas dentro de uma caixinha; ela é conduzida pelo vento do Espírito. E, como sabemos, o Espírito é livre para soprar como e onde quer, sem que tenha de ser aprovado pelos concílios dos homens, pelo contrário, nós buscamos o que Deus está fazendo e o seguimos.

Precisamos ter uma visão ampla da obra, bem como a sabedoria de respeitar os tempos, tamanhos e estações de cada igreja local, de cada trabalho local com os jovens. Em todo tempo, o mover de Deus no meio dos jovens está se movendo, pois é vivo e contínuo.

São momentos distintos, de maneiras e com pessoas distintas, mas sempre com os mesmos princípios e coração. Temos de ter a experiência de um chamado, de queimar tudo, desde o começo, e desafiar jovens para isso. Precisamos tirá-los de Gilgal e seguirmos para Betel, uma vida apaixonada, consagrada, santa, piedosa. Precisamos ter a mensagem que traz a realidade do chamado de Deus na vida dos jovens, bem como uma mensagem que traz a separação e a identidade para o trabalho. Não importa quando, onde nem o tamanho que sua obra tenha, as estruturas são flexíveis e momentâneas, mas esses princípios que temos compartilhados até aqui são inegociáveis e devem ser transferidos para as novas gerações que estão assumindo o trabalho no lugar da antiga. Esta é uma chave poderosa para a longevidade do mover de Deus no meio dos jovens, uma transição não apenas do trabalho, mas, acima de tudo, do DNA

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